A opinião do pesquisador e historiador sobre os acontecimentos do carnaval

Análise dos desfiles das escolas do Grupo de Acesso de Niterói


Análise e notas do Professor para os desfiles das escolas de Samba do Grupo de Acesso de Niterói, realizado na segunda-feira, 11 de fevereiro na Rua da Conceição.

Cacique da São José apresentou bom conjunto de fantasias
Cacique da São José -   Comissão de frente veio com estética indígena e teve boa apresentação coreográfica. Alegoria com bom acabamento trazia o Cacique maior, representando o símbolo da escola. O casal de mestre sala e porta bandeira vieram escoltados por guardiões que os protegiam. Escola mostrou um desfile muito coeso, nas suas alas, desfilando compacta e com bom ritmo. Nota 9.5.


-      Império de Araribóia - Apresentou a alegoria mais inventiva e original, trazia a réplica de uma favela. Comissão de frente teve coreografia vacilante durante a sua apresentação. A bateria teve um ritmo muito estranho, acelerada de mais, acabou prejudicando o andamento do samba enredo. Nota 7,0.

3-      Souza Soares – Escola veio contando os seus cinqüenta anos de história, com um samba de boa linha melódica, a veterana Souza Soares, apesar de reduzida no numero de componentes, fez um desfile com muita garra. Nota 7,5.

4-      Magnólia Brasil – Agremiação, não teve muita sorte no seu desfile. Fez uma opção arriscada, de colocar comissão de frente e casal de mestre sala e porta bandeira, uma atrás da outra, abrindo o desfile da escola. O resultado disso foi desastroso. As coreografias terminavam em tempo distintos, abrindo assim um clarão visível no desfile da escola. Sem contar com um imprevisto, de uma ambulância que entrou por dentro das alas, fazendo a escola parar seu desfile. Nota 6,0.

5-       Garra de Ouro – Apresentou um bom samba enredo, acompanhado de uma afinada bateria que teve, nos seus tamborins seu ponto forte. Suas alegorias deixaram muito a desejar no acabamento e estética. Veio com apenas nove baianas, número inferior ao permitido pelo regulamento. Nota 7,0.

6-      Unidos do Sacramento - A agremiação única representante de São Gonçalo no desfile do acesso de Niterói apresentou uma discrepância em seu desfile. Veio com o maior contingente de baianas da noite vinte e cinco no total. Muito bem vestida esta ala se contrastou, com o restante da escola, que veio com fantasias bem modestas. O interprete da escola, sozinho no carro de som e vestindo uma camisa de outra agremiação carnavalesca, teve dificuldades de levar o canto até o final. Nota 5,0.

7-      Bem amado- Entrou na Rua da Conceição, com quase uma hora de atraso. Apresentou o único carro alegórico acoplado do desfile. Com um enredo afro esta escola, apresentou um número reduzido de componentes que tiveram dificuldade de levar o bom samba enredo da escola. Nota 6,0.

União da Engenhoca – Com a responsabilidade de fechar o desfile, a Engenhoca a exemplo do ano passado apresentou muitos problemas na sua passagem pela Rua da Conceição. Reeditando um enredo da inesquecível Corações Unidos, a escola apresentou o melhor samba enredo da noite, que deu um ar de nostalgia no desfile. O público cantou o samba da Engenhoca. Mais infelizmente só o samba não vai ser suficiente para tirar o título de pior escola a se apresentar na noite de ontem. Com um número ínfimo de componentes e alegorias inacabadas e fora do contexto do enredo a escola é séria candidata ao último lugar no grupo. A ressaltar de positivo além do samba, foi a Comissão de frente da Engenhoca que trouxe pretas velhas e mãe de santo, dando mais uma vez um ar de carnaval do passado no desfile da escola. Nota 4,0 .  

Unidos do Jacarezinho: Força, raça, poesia e samba no pé


      Tem um verso muito conhecido de um samba alusivo da Unidos do jacarezinho que Diz assim. “ninguém segura meu jacaré, meu jacaré, tem poesia e samba no pé”.                 
      Pesquisando cuidadosamente a obra musical desta magnífica escola de samba, pude constatar que estes versos reproduzem fielmente uma das características mais marcantes da Jacarezinho, que é o lirismo poético aliado a um ritmo peculiar que faz seus sambas se tornar um dos mais singulares da história do samba enredo.
       Fruto da fusão de três agremiações da região, Unidos do Morro azul, Unidos do Jacaré e do bloco Não tem Mosquito, a Jacarezinho tem uma história calcada na força da sua comunidade, basicamente de maioria negra e proletária e de uma profícua e talentosa ala de compositores que tem no seu quadro, figuras como nada mais nada menos, que Monarco, Bené do Feitiço, Nonô e o imortal Barbeirinho do Jacarezinho.
       Em 1970 estreando como debutante entre as grandes do Rio a pequenina Jacarezinho já dava seu bom cartão de visita , mostrando com o belíssimo samba enredo O Fabuloso Mundo do Circo, que ela compensaria sua falta de grana para fazer seus desfiles plásticos, desfilando obras musicais que tocariam a alma do sambista carioca. Este samba de autoria da dupla de compositores da escola Marcos e Sarabanda pode ser considerado um clássico do gênero. A melodia é baseada nas cantigas de roda e tem no laiá laiá uma marca da sua identidade musical, que vai aparecer constantemente nos outros sambas da agremiação.
       Durante o restante da década de 70 a Jacarezinho foi desfilando vários sambas de alto nível, mas eu destaco dois como obras fenomenais. O primeiro é Catarina Mina de 1975 neste enredo o jacaré, conta a quase desconhecida história da sensual e bela escrava Catarina Mina, que usou o seu corpo e seu amor para negociar sua participação na sociedade maranhense colonial. Eis um dos estribilhos deste belo samba.
                               Olha o boi bumba
                               Olha o Catimbó
                               Salve o batuque
                               No terreiro da vovó.
         Rode compositor solitário desta obra, recorre como de costume da ala de compositores da escola, as cantigas populares para ilustrar suas poesias.
          Em 1976 a Jacarezinho desceu para defender mais um belo samba enredo, se tratava de Canudos, sua história, sua gente. Engraçado, é que neste mesmo ano, outra escola tão popular como a Jacarezinho, a Em Cima da Hora, emplacava também um dos sambas, mas bonitos do carnaval carioca, Os Sertões que a exemplo da Jacarezinho abordava a carnificina proporcionada pelas elites brasileiras para acabar com a obra social criada por Conselheiro e seu povo. Talvez pela grandeza do samba da Em Cima da Hora , pouca gente nota a qualidade deste samba da Jacarezinho. O que tem de mais singular e fantástico neste samba é, o seu refrão principal.
                              Oh virgem do Rosário
                              Senhora do mundo
                              Dê- me um coco d´agua
                              Senão eu vou ao fundo.
          Guaraci, Meireles, Moreira e Thompson são de uma felicidade poética fora do comum, carnavaliza a prece que o pessoal de Canudos clamava nas horas mais críticas de embate contra as forças do Estado reacionário. Belo!

          Nos anos 80 chega para administrar a escola mestre Monarco, com ele, começa uma fase de homenagens a grandes compositores da nossa música popular, em 1981 a escola leva para avenida o enredo Paulo da Portela, a majestade do samba. Em 1982 é a vez de homenagear Geraldo Pereira e finalmente vem à coroação com o enredo Candeia, a luz da inspiração, que deu a escola o título de campeã do extinto grupo 1B o acesso dá época que dava ascensão ao grupo principal.
        Com esta justa homenagem a um dos homens mais politizados do mundo do samba, mestre Candeia, a Jacarezinho produz mais uma obra prima musical. Com um samba sério, nostálgico e de exaltação, a verde rosa do Jacaré, sensibiliza toda a passarela do samba ao passar com este cântico já nas primeiras horas da manhã de domingo de carnaval. No tom dos versos do samba de Bené Feitiço, Pedrinho Total, Zé Leitão, Vilmar e Marquinho Mancha, a Jacarezinho, apresenta um desfile em tom menor e uma apresentação plástica comandada pelo carnavalesco Flávio Tavares que leva aos jurados a não terem dúvida da campeã do acesso de 86. A pesar dos protestos feitos pela Acadêmicos do Engenho da Rainha ao Presidente da extinta Rio Tur Trajano Ribeiro em relação a uma nota 7 recebida pela bateria da escola. Lamentações e polemicas não podem macular este campeonato da Jacarezinho.
       Para finalizar, quero dizer, que esta reflexão sobre esta bela agremiação carnavalesca chamada Unidos do Jacarezinho, visa também, além de mostrar o valor cultural desta favela fantástica, que foi e ainda é responsável pela liberação de grande parte de trabalhadores que vão vender sua força de trabalho para os magnatas da zona sul, mas que como vimos ajudou a escrever uma bonita pagina da história do samba carioca.
       A favela do Jacarezinho não é só tráfico e miséria como mostra a mídia burguesa todos os dias, por trás desta realidade mórbida produzida pelo capitalismo excludente se esconde, uma bela história de amor chamada Grêmio Recreativo escola de samba Unidos do Jacarezinho. 

A queda do Tigre


   Uma das coisas que me chamou a atenção no desfile deste ano do grupo especial do Rio de Janeiro, foi à queda da nossa Unidos do Porto da Pedra, o tigre de São Gonçalo. 
    Antes de abordar e analisar os motivos que levaram ao rebaixamento da escola quero sintetizar, um pouco da história desta importante agremiação carnavalesca. 
    Depois de passar pelas experiências de bloco de embalo e de enredo, a Porto da Pedra, se transformou em 1981 numa Escola de Samba.
    As primeiras apresentações foram realizadas no carnaval de rua do município de São Gonçalo. Entre 1985 e 1992, a agremiação desfilou apenas pelas ruas do seu bairro de origem, a partir de 1993, com a força da sua comunidade a escola começou a se organizar, adotando o tigre como símbolo e arrumando o barracão para atravessar a Baía de Guanabara e desfilar seu talento entre as escolas do Rio de Janeiro.
      Quis o destino no ano em que a Porto da Pedra faz 10 anos desfilando ininterruptamente no grupo seleto das escolas de samba do Rio, que o tigre amargasse o gosto da queda. Queda esta, anunciada por toda a crítica especializada em carnaval, numa espécie de tragédia anunciada, desde que a escola escolheu o iogurte como tema do seu carnaval para 2012.
       Ouvi uma entrevista do querido presidente da Porto da Pedra, reclamando de um possível pré-linchamento por parte da opinião pública em relação à escolha do enredo da escola, que ao ver dele influenciou na decisão dos jurados em rebaixar a escola de São Gonçalo.
        Com todo respeito que a opinião do presidente da Porto da Pedra me mereça, vou pedir licença para discordar dela. Não acho que a opinião pública tenha influenciado na decisão do jurado. O que houve é que, a análise feita ao enredo da escola antes do carnaval, se transformou em constatação no desfile da Marques de Sapucaí e no julgamento do jurados. Ou seja, o enredo sobre o Iogurte, embora possa ter rendido boas finanças para a escola, prejudicou muito a mesma como tema artístico de desfile. Com exceção da fabulosa bateria, as notas que a escola conseguiu foram muito baixas em relação às outras concorrentes. E em minha opinião isso se explica muito pelo fato do tema escolhido pela escola para ser o enredo, não sustentou o desfile da agremiação.
    Já falei isto varias vezes quando comento carnaval, não sou contra o enredo patrocinado. Vivemos infelizmente numa sociedade capitalista, mas o enredo patrocinado tem que gerar um tema de qualidade. Para isto acontecer ele deve ter um conteúdo consistente que gere um bom samba enredo e um desenvolvimento na avenida bem criativo e desenvolto.
    Infelizmente o tema iogurte não proporcionou nenhuma vantagem para a Porto da Pedra no aspecto carnavalesco porque, era muito fraco. 
    Que a Porto da Pedra com a força do seu chão possa repetir no grupo de acesso, apresentações brilhantes como no passado recente e, com isto voltar ao grupo especial. 

Colunista analisa os ensaios da Inocentes de Belford Roxo, Porto da Pedra e Vila Isabel

Ellen Roche mais uma vez brilho à frente da bateria da Porto da Pedra
                 No ultimo final de semana tivemos mais uma seqüência dos ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí. No sábado Inocentes de Belford Roxo e Unidos do Porto da Pedra não empolgaram o público que compareceu ao evento. 
                  A escola da Baixada Fluminense fez um desfile esforçado, dentro das suas modestas possibilidades. O enredo que fala de Corumbá e com forte conotação indígena e nacional me agrada muito. O samba é valente, tem muita força e contempla bem o enredo da escola.
               A querida escola de São Gonçalo, a nossa Porto da Pedra vem com enredo muito questionável, pois fala do iogurte que convenhamos não dar samba. Tanto que o samba enredo da Porto da Pedra está sendo considerado o mais fraco da safra do grupo especial. Mesmo assim a comunidade de São Gonçalo abraçou o samba e soltou os pulmões na avenida. O destaque do ensaio do tigre foi sua magistral bateria que tendo a frente à esfuziante e bela Ellen Roche deu um banho de ritmo e beleza na avenida.
               No domingo assisti aos ensaios de Grande Rio e Vila Isabel. A escola de Caxias, a exemplo da Porto da Pedra tem um samba sofrível, mas que a comunidade abraçou. O enredo da Grande Rio que fala da superação e, tem um toque diferente que pode dar certo e emocionar o público no dia do desfile. Sobre o ensaio propriamente, a Grande Rio teve um problema com seu carro de som que pifou na avenida. Não se entendia sequer se distinguir o cavaco e o violão um do outro. Depois que passou a bateria, o ensaio caiu muito, pois a escola que até aquele momento vinha numa empolgação notável simplesmente parou de cantar e interagir com o público, que lotava as arquibancadas da Sapucaí.
              Para encerrar os ensaios deste final de semana veio a Vila Isabel. Com enredo que fala dos nossos irmãos angolanos a Vila fez um ensaio com a marca da sua comunidade. Com muita garra, samba no pé e na ponta da língua. E por falar no samba da Vila, ele trás o contra canto como novidade este ano. Para quem não sabe, o contra canto é quando o puxador da escola canta uma parte do samba e passa a outra parte para o coro da escola cantar. Ocorrendo assim o contra canto. Engraçado que a Vila fez isto no ensaio e se propõem a faze- lô no dia do desfile. No ensaio ficou direitinho vamos ver se vai funcionar no dia. Como a Vila é uma escola que ensaia muito e organizada acho que vai funcionar. Ainda sobre o samba da Vila quero ressaltar o desempenho do seu puxador, o bravo Tinga. Tinga tem talento, mas acho que exagera nos cacos, que são aqueles gritos que o puxador usa para animar a harmonia da escola. Tinga cantou pouco o elogiado samba da Vila deste ano. O ponto alto do ensaio da escola de Noel foi em minha opinião, a apresentação do casal de mestre sala e porta bandeira Ruth e Juninho que deram um show na avenida.
               É isso aí galera! Final de semana tem mais ensaios...até lá!               

Obra de jovens escritores preenche uma lacuna na literatura sobre escolas de samba

     No último dia 17 estive no lançamento do livro as três irmãs, de autoria de Alan Diniz, Alexandre Medeiros e Fabio Fabato. A festa foi muito bem prestigiada pelo mundo do samba. Estavam lá nomes como a inesquecível Pinah, Tiaozinho da Mocidade, Dominguinhos do Estácio, Velhas Guardas, Carnavalescos e etc. Tal fato teve sentido, pois a obra produzida por esses jovens intelectuais do samba é de ótima qualidade.
     Como pesquisador de Escola de Samba fico feliz que a Editora Nova Terra tenha abraçado esse projeto e ajudado a materializar este livro que vem preencher sem dúvida nenhuma uma lacuna que existia na literatura sobre escolas de samba. Beija Flor, Imperatriz e Mocidade romperam com o modelo de carnaval que vinham se fazendo até então e no qual Mangueira, Portela, Salgueiro e Império Serrano monopolizava as atenções e eram as maiores papas títulos.
     Alexandre, Alan e Fabato, tiveram a sensibilidade de narrar está revolução trazida pelas três irmãs com leveza, criatividade e muito talento.
     Já comecei a ler o livro e, no capítulo denominado os três espantos da criação Alan Diniz, foi extremamente feliz ao enxergar um determinismo quase cabalístico na relação das três escolas retratadas no trabalho com seus os carnavalescos. Segundo o autor, Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta e Fernando Pinto foram feitos para as suas respectivas escolas que trabalharam e se consagraram. Arlindo para a Imperatriz, Joãosinho para a Beija Flor e Fernando para a Mocidade.
     Arlindo fez um casamento perfeito com a Imperatriz, segundo o autor, pois seu carnaval clássico e linear tinha a cara da escola da Leopoldina. Foi a dose perfeita para fazer uma nobre escola se sentir mais pomposa e garbosa.
Joãosinho Trinta vai transformar a Beija Flor de uma escola ‘’chapa branca “dos governos militares em matriz da imaginação anarquizante. Ratos e Urubus sem dúvida foi auge deste novo momento da escola de Nilópolis.
     E Finalmente Fernando Pinto, revolucionou a mocidade, que a partir da sua chegada, deixa de ser uma escola cercada de bateria, para se tornar uma escola organizada e luxuosa. Com seu tropicalismo imaginativo Fernando revelou um Brasil louco, mas livre da colonização estrangeira.
     Por todos esses singelos comentários feito sobre a obra desses rapazes é que recomendo a leitura deste livro, lançada por este talentoso trio de escritores.

Sambas de enredo 2012 do Grupo Especial: uma das piores safras da história do gênero


     Neste final de ano como de costume, comprei o CD das escolas de samba do grupo especial, versão 2012. Ao escutar fiquei decepcionado com a qualidade das obras apresentadas.
     Começando, por uma analise do samba da atual campeã Beija Flor, ele tem uma letra que embora, não fuja muito do senso comum, do uso de adjetivos e substantivos que já estão surrados no universo do samba, tem uma poesia minimamente apreciável, mas fica muito longe de outras obras da escola de Nilópolis produzidas, por exemplo, na década de 2000.
     Escutando o restante do CD, cheguei à conclusão, que é uma das piores safras dos últimos anos do grupo especial. Os sambas da Mangueira e da União da Ilha do Governador são de fazer chorar qualquer amante da ala de compositores destas duas fabulosas escolas.
     O samba da Mangueira tem um repetido sim no intervalo de uma frase, na segunda estrofe do samba, que ficou ridículo sonoramente. O ultimo refrão, vem com um jargão do tempo do Jamelão. Eu sou Mangueira, “a voz do morro”. Totalmente batido.
     “A União da Ilha, que já teve obras do quilate de “Domingo”, “O Amanhã”, O que será”? E É hoje, Vem para o carnaval 2012 com um samba sofrível. A melodia é parecida com a dos três últimos sambas da escola e, sua dissertação chega a ser bizarra em alguns momentos. Molho inglês no meu parco conhecimento culinário se bota num belo bife e não, na feijoada como diz a letra do samba.
      Agora, fazendo uma analise mais profunda do porque de tanta mediocridade num disco de samba enredo, não dá para botar tão somente na conta da mercantilização do concurso de samba ou na falta de qualidade e imaginação de alguns compositores. É preciso questionar a produção e gravação do disco de samba enredo.
     A indústria cultural transformou os sambas enredos em algo sem alma e identidade e o mais grave com a ajuda e consentimento de sambistas.
    Para encerrar, quero falar do samba da Portela que está sendo considerado pela critica como o melhor samba da escola de Madureira das ultimas décadas. Já vi gente falando que este samba é melhor do que de 1984 e 1995 da Portela. Em minha opinião isto é uma heresia. O samba 2012 da Portela é um bom samba que comparado com a baixíssima qualidade das outras obras deste ano, vira na cabeça de alguns marinheiros de primeira viagem, uma obra prima que não é na verdade.
    Analisando o samba da Portela podemos ver que o enredo é super batido, e sua poesia é trivial e óbvia. Mas o que surpreende  negativamente no samba da Portela de 2012 é sua melodia sem estética sonora. Se compararmos a melodia deste samba como o Gosto que me Enrosco de 1985, O ultimo da um banho de emoção sobre o primeiro.
   Esta na hora de nós amantes do samba enredo, alertarmos para onde estão levando o gênero musical que se transformou em trilha sonora da nossa História. Se não rompermos com este paradigma pasteurizado e sem imaginação o samba enredo vai desaparecer como os dinossauros da face da terra.              

A morte do gênio da raça


Joãosinho Trinta (foto: reprodução)
       O Brasil perdeu ontem o seu gênio da raça. O visionário e revolucionário Joaosinho Trinta. Este maranhense que assombrou em 1974 o carnaval carioca com seu enredo Rei França Na Ilha Da Assombração.
       A partir daí, os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro não foram mais os mesmos. Com suas imensas alegorias, mulheres seminuas e fantasias luxuosas, João cria uma espécie de fôrma que foi copiada pela maioria dos carnavalescos chamados modernos.
      Mas falar de Joãosinho Trinta para mim é sem duvida nenhuma relembrar aquele que foi ao lado de Quizomba A Festa Da Raça da Vila de Martinho, os dois maiores desfiles da história do sambódromo. Estou me referindo ao antológico desfile da Beija Flor de Nilópolis de 1989: “O famoso Ratos e Urubus larguem minha fantasia”.
      Em Ratos e Urubus, Joãosinho como se estivesse conversando consigo mesmo, escreve um enredo que vai, de certa maneira, negar aquele tipo de carnaval implementado por ele. Cujo biônimo, foi baseado na formula luxo e beleza. O próprio nome do enredo sugere esta reflexão. Os ratos e urubus na metáfora carnavalesca de João representava a estética do feio que ele, sempre escondeu dos seus enredos fantasiosos e lúdicos. Esta faceta esnobe do artista fez inclusive ele falar aquela “pérola” de quem gostava de pobreza era o intelectual, pobre gostava era mesmo de luxo.
     Classifico esta infeliz frase de João como pérola, devido ao fato de ele ter esquecido que o maior legado deixado pela escola de samba foi o samba e que este, foi fruto justamente da criação do pobre morador do morro. O sambista proletário valorizou primeiro a cultura dele e não a grana da burguesia. Foi a figura do carnavalesco, no qual, João foi um dos pioneiros, que introduziu a supremacia da ‘espetacularização’ do desfile em detrimento do samba no pé do pessoal excluído do morro.
     Portanto, ao trazer para a Marques de Sapucaí um tema que homenageava na sua essência os humildes moradores de rua, João se retratava com a bobagem que ele tinha falado. Como intelectual vindo das classes menos favorecidas João ao fazer este enredo revolucionário, contempla em sua obra duas característica inovadoras para seu trabalho: o realismo e o teor social do enredo.
     Para entendermos o impacto de Ratos e Urubus na mudança de visão de João, temos que contextualizar este enredo no panorama político do Brasil da época.
      Depois de anos de ditadura civil – militar, o Brasil voltava a ter um sistema político que apesar de não representar nem de longe os anseios populares, mas trazia de volta pelo menos, a chance da verbalização da critica sem restrições. E foi aí que João mudou sua filosofia carnavalesca. Trazendo para aquele carnaval de 1989 uma releitura dele sobre o Brasil contemporâneo.
      Ratos e Urubus ao adentrar na Marques de Sapucaí se transforma numa espécie de fantasma para a burguesia retrógada brasileira, principalmente a reacionária Igreja Católica que desesperada em ver Jesus Cristo compartilhado na invenção social carnavalesca, com os profanos mendigos produto da sociedade de consumo, não tem alternativa a não ser censurar a obra de João. 
     É como se o desfile da Beija Flor revelasse para todo o Brasil naquele momento, o inconsciente das elites brasileiras, que foi escondido o tempo todo pela ação de poder do Estado. Cristo não poderia ser adorado pelos “estranhos” produzidos pelo “bárbaro sagrado sistema civilizado”.
     Quis o destino que a Beija Flor naquele ano perdesse o carnaval para o desfile “chapa branca” da Imperatriz Leopoldinense.  Apesar de ter o samba mais bonito daquele ano, a escola da Leopoldina trazia para a passarela do samba, um culto ao Estado brasileiro. Contemplando a República com sinônimo de liberdade e fraternidade. Algo totalmente avesso ao que a Beija Flor levou para a avenida.
    A derrota do carnaval revolucionário de João concretizou- se na nota equivocada do jurado de samba enredo. Ele tirou pontos da obra da Beija Flor, alegando que sua letra do refrão não tinha relação com o enredo. Tal atitude do jurado revelou o total despreparo intelectual destas figuras no trato de julgamento do quesito em disputa.
    A letra tinha tudo a ver com o enredo porque a palavra legba ou mais propriamente elegbera é um dos nomes de Exu – orixá habitante das ruas, que inclusive se manifesta nos mendigos, segundo a crença popular.
   Para encerrar digo que Ratos E Urubus entrou para a História do carnaval carioca, pois revelou uma faceta deste gênio da raça que nem ele tinha muita noção que existia, mas, que foi trazida a tona junto com toda aquela enxurrada de transformações que a História brasileira estava expelindo.
    Obrigado por tudo mestre João!

Dois sambas se destacaram na safra 2012 do Império da Tijuca

No último domingo dia 07, estive na quadra da nossa querida Império da Tijuca no morro da Formiga, para acompanhar a primeira eliminatória de samba enredo para o carnaval 2012.
Fiquei muito feliz de ver uma escola tão tradicional e com um chão fantástico, como a Império da Tijuca, realizar suas atividades carnavalescas junto da sua comunidade. Ficamos ali naquela quadra pequena e aconchegante, com um calor humano sensacional e singular, ouvindo sambas da escola como: Tijuca, canto, recantos e encantos, O mundo de barro de Mestre Vitalino e Suprema jinga – senhora do trono Brazngola.

Olhando da varanda o complexo de morros que cerca a quadra, comecei a refletir como é bacana para a história das escolas de samba, manter suas raízes aonde sua memória foi construída. Ver aquele entra e sai de gente do morro na quadra, vindo compartilhar identidade com a escola foi muito comovente.

Doze sambas começaram a disputar quem vai representar o enredo – Viagem Aos Confins da Imaginação do carnavalesco Severo Lazardo. Vou destacar dois sambas como os mais interessantes na disputa do Império da Tijuca.

O primeiro foi da parceria Hamilton, Telê e JB que em minha opinião foi o melhor samba da noite, pois, conseguiu sintetizar com poesia o confuso enredo do carnavalesco além, de fazer um samba com a cara do Império. O outro samba que agradou foi o da parceria de Vicente das Neves, Tiãozinho, Laerte Inácio e Adilson da Viola neste samba destaco a melodia rica em variações de tom.

Vamos torcer, para que o Império da Tijuca escolha o melhor samba e que o carnavalesco possa fazer uma boa leitura visual do seu enredo.

Foto: Acervo da Escola
Disponível em: http://www.greseimperiodatijuca.com.br


Primeira noite de ensaios

Antes de comentar sobre o desempenho das escolas de samba, quero ressaltar que os organizadores destes ensaios técnicos deveriam respeitar mais o povo que vai lá assistir este evento e, preparar melhor o sambódromo para o público que vai prestigiar todos os anos estes ensaios.

Foi uma vergonha o que se viu domingo. Muitos acessos de arquibancadas fechados, dificultando a chegada das pessoas. Corredores escuros, facilitando possíveis assaltos e tumultos e, banheiros fedorentos e com vazamentos de água. Em suma, as condições da passarela do samba eram péssimas. A impressão que se tem, é que tem gente, criando dificuldade para vender facilidades. Ou seja, justificar a possível cobrança de ingressos no futuro, para se assistir os ensaios técnicos.

Falando dos ensaios das escolas, a Acadêmicos da Rocinha foi a que abriu a noite. Fez um desfile agradável, o samba é de bom nível embora, se pareça com outras composições da própria escola.

Depois veio a São Clemente. Esta fez, na minha opinião, o ensaio mais fraco da noite. O samba que já não ficou bom na gravação virou uma chatice na avenida. A ala das baianas veio para o ensaio com uma saia que parecia mais um cone, destes que são usados em transito de rua, do que uma fantasia estilizada de baiana. O resultado disso foi uma dificuldade de evolução das queridas baianas da amarelo e preto na avenida. Acho que a São Clemente vai ter que trabalhar muito forte até março, para se manter no grupo especial.

Para encerrar a noite veio o Salgueiro. Quando a vermelho e branco pisou na avenida, já era madrugada de segunda feira. Com um samba, que considero um dos melhores da safra do grupo especial, a escola veio com uma novidade na sua conhecida furiosa bateria. Mestre Paulinho (ex Beija Flor), estreou ao lado de mestre Marcão formando assim uma dupla de regente de bateria à frente dos seus ritmistas.

No desenrolar do ensaio, já se notou uma mudança sensível, mas significativa, na bateria da escola. E esta mudança tendeu é lógico para um estilo de andamento parecido com o de mestre Paulinho.

O questionamento que faço em relação a esta medida tomada pela direção do Salgueiro em manter, a frente de sua bateria dois mestres é a seguinte: até que ponto mestre Marcão vai se sentir a vontade em relação às mudanças introduzidas por mestre Paulinho? E mais, como os ritmistas vão entender esta situação de terem dois mestres para obedecerem? Estas respostas só o tempo nos responderá. Como observador acho que a direção do Salgueiro vai ter que trabalhar esta situação com muita perspicácia para não haver conflito entre dois talentos do samba.

Embora a diretoria do Salgueiro e o próprio mestre Paulinho admitam que mestre Marcão seja o diretor principal da bateria da furiosa, o retrospecto no aspecto de notas da bateria do Salgueiro no último carnaval, quando ela perdeu pontos nos três módulos dos cinco disputado. E o próprio currículo de mestre Paulinho na sua marcante passagem pela Beija Flor, já faz com que o Salgueiro lide com esta situação que ele mesmo criou com cautela e critérios bem definidos.


Foto: Site da LIESA

Os grandes sambas de enredo da década de 2000

No ultimo dia 31 de dezembro de 2010, se encerrou a primeira década de 2000 e, com ela se foram alguns sambas enredo, que pelas suas qualidades, ajudaram a construir a memória sonora das escolas de samba neste período.

Selecionamos dez sambas de enredo, que a nosso ver, se destacaram como boas composições, nos primeiros dez anos da década de 2000.

Começamos pelo ano de 2001. Lá, pincelamos duas pérolas: a primeira é Saga de Agotime da Beija Flor. Este samba teve a África como tema gerador, trazendo a história da negra Maria Mineira Naê. Introdutora do vodu na América. A ritualística sonora com grande força nos atabaques é o ponto alto deste magnífico samba. A impressão que se tem, é que estamos na África antiga ao ouvirmos este samba da Beija Flor. A outra obra de 2001 que destacamos é o da Grande Rio. O Profeta saído do Fogo. Este enredo tirou do anonimato histórico, o profeta Gentileza, que soube como ninguém, expressar o valor da cultura popular, através das suas reflexões contra o sistema capitalista. O samba tem uma melodia bem comovente, como também, uma letra que soube sintetizar bem o enredo.

Do ano de 2002, iniciamos com o sambaço da Mangueira, campeã daquele ano. Com seu Brasil com Z é pra Cabra da Peste, Brasil com S é Nação do Nordeste. A Mangueira trouxe um samba com uma melodia valente e uma dissertação belíssima! O outro samba escolhido deste ano foi o da Unidos do Porto da Pedra. Serra Acima Rumo à Terra dos Coroados. Samba cuja força é sua contagiante melodia, sempre em tom maior.

Em 2003, começamos com a recordação de um clássico do samba enredo. O fabuloso Agudás da Unidos da Tijuca. Nele a escola do Borel contou a saga dos “leões” africanos voltando para as terras dos seus ancestrais na África. Neste mesmo ano a Unidos do Viradouro trouxe para Marques de Sapucaí um belo samba enredo. A Viradouro canta e conta Bibi. Com um lirismo singular e uma letra emocionante a escola de Niterói contou a história de uma grande atriz brasileira. Mas 2003 ainda revelou outro bom samba, e de novo a Grande Rio, desta vez o tema é: O Brasil que vale. Destaco neste samba a criatividade dos compositores, que transformaram um enredo “frio” que falava de mineração, em um samba enredo emotivo e harmonioso.

Pulamos agora para o ano de 2007 e lá recordamos uma obra prima do Salgueiro Candaces. Novamente o tema afro, fez nascer um grande samba. Destaco nesta poesia a dissertação do samba que mostra com muita riqueza poética a história das rainhas negras.

Para fecharmos a nossa escolha dos dez melhores sambas da primeira década de 2000, selecionamos duas obras da querida Imperatriz Leopoldinense. A primeira é de 2008 João e Marias. Este samba se destaca pela singeleza da sua dissertação. O outro samba é o de 2010. Brasil de todos os Deuses, um samba que traz consigo todos os requisitos que um bom samba de enredo tem que ter. Letra consistente e contornos melódicos bem definidos e variados.

Estes, portanto foram os 10 sambas escolhidos por nós como bons samba de enredo da primeira década de 2000. É claro que pode ter ficado de fora outras obras que não foram lembradas aqui pelo nosso critério de escolha. Mas, o que fica legal a registrar é que, ao contrario de que parte da crítica de samba enredo diz a década de 2000, não é uma década perdida em termos de qualidade de samba enredo.
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Prof. Mariano
Pesquisador e carnavalesco do carnaval de Niterói

Erasmo Carlos ataca de compositor na Beija-flor

A escolha de Roberto Carlos como enredo da Beija Flor é, em nossa opinião uma boa opção. A escola de Nilópolis pegará carona nos cinqüenta anos de carreira do nosso mais popular cantor brasileiro, sem contar, que Roberto Carlos, foi enredo pela primeira e única vez, há exatamente vinte e sete anos, quando a modesta Unidos do Cabuçu homenageou o rei. Agora a Beija Flor fará uma releitura mais atual e sofisticada sobre o tema.

Mas, para alcançar o êxito de sempre no desfile das grandes escolas do Rio, a azul e branco, terá que ter um critério de coerência na disputa de samba enredo.

Após ouvir os oito sambas finalistas cheguei a seguinte conclusão: que o samba eleito pela mídia e que a própria escola está dando como favorito é justamente o que eu considerei o mais fraco de letra e melodia. Refiro-me aos sambas da parceria dos famosos Erasmo Carlos, Paulo Sergio Vale e Eduardo Lages

A letra deste samba retrata de forma muito limitada a vida e carreira do homenageado, sem contar que poeticamente a dissertação é pouco apreciável. Do ponto de vista melódico, este samba parece um jingle de campanha política. De samba enredo ele não tem nada. Se esta composição fosse de autores anônimos fatalmente, teria sido alijado já nas primeiras eliminatórias. Mas como tem grife de famosos, persisti na disputa e como favorito ao titulo de hino da escola para o carnaval de 2011.

A participação do trio de astros da MPB na disputa de samba enredo da Beija Flor trás a tona, a discussão sobre o critério para se poder disputar samba enredo numa escola de samba. Antigamente para participar da ala de compositores da maioria das escolas de samba do Rio era preciso, passar por uma espécie de “prova” para constatar o talento musical e poético do artista e mais, o sujeito tinha que ser sambista e ter uma relação intima com a cultura da sua comunidade.


Com o passar do tempo, a disputa foi virando um melancólico “negócio " que se abriu para qualquer um participar. O resultado disso foi à banalização do samba enredo como estilo.

Erasmo Carlos, Eduardo Lages e Paulo Sergio Vale são sem sombra de duvidas excelentes nomes da nossa música, mas não são compositores de samba enredo, até que me prove o contrário. Por isso acho que a participação deles é uma aventura para ambos e principalmente para Beija Flor, que vem em nossa opinião se notabilizando, como uma das escolas de samba que melhor escolhe os seus hinos nas ultimas décadas.


Voltando para análise geral da disputa de samba na Beija Flor, quero finalizar dizendo que, dos sambas finalistas destaco como melhor, o da parceria Tom Tom, Miguel Menezes, Gelson, Barbosão e Diogo Rosa. Esta composição tem a cara da Beija Flor além der ser a de melhor poesia, melodia e letra.

foto:divulgação

Carnaval Virtual vira realidade!

Pelo segundo ano consecutivo, nós da Cadência da Bateria temos a satisfação de cobrir, através do nosso blog, o desfile das Escolas de Samba Virtuais. E o que nós sentimos é que a cada ano, este evento se solidifica como calendário para os amantes e profissionais que lidam com o carnaval, em particular com os desfiles das Escolas de Samba.

Sem dúvida nenhuma, o carnaval virtual virou realidade!

Este ano, não tivemos desfiles tão bons como os do ano passado. Mas, em compensação, as Escolas Virtuais esbanjaram jocosidade e irreverência, ingredientes importantíssimos para um desfile de Escola de Samba. Assim, as Escolas Virtuais saíram da mesmice das Escolas presenciais que carregam na tristeza e sofreguidão nos seus desfiles.

Nos dois dias de desfile, destaco quatro apresentações. A União de Beijilha, foi uma grata surpresa, fez um desfile coeso do início ao fim. Embora, o enredo fosse de difícil entendimento. Suas fantasias simples, causaram mesmo assim, uma boa impressão. A Pura Soberba fez jus ao seu nome com um desfile engalanado e majestoso. O enredo passeou pela cultura nordestina, mostrando através de fantasias arrojadas e rústicas plasticamente, um pouco da nossa cultura popular. A União Vermelho e Branco, atual campeã do carnaval virtual, não deixou por menos, fez um desfile para ser bi campeã.

Para encerrar, nossa análise dos melhores desfiles, falaremos da Sei Lá. Grata surpresa dos desfiles virtuais deste ano. Veio com fantasias luxuosas e um enredo com bom desenvolvimento na avenida.

É isso pessoal!

Viradouro tem que ressurgir das cinzas!

Exatamente há vinte anos, a Unidos do Viradouro com desfile muito coeso e bem desenvolvido na avenida, conseguia conquistar, com o “enredo “ só vale o escrito”, o título de campeã do antigo grupo 1 do acesso e, assim chegar ao grupo “ especial " do carnaval carioca. Tal feito foi seguido de anos desfilando entre as principais escolas de samba do Rio de Janeiro , inclusive com um campeonato do grupo “especial” em 1997.


Mas infelizmente , nos últimos anos a escola de Niterói , vem se perdendo em problemas políticos e internos, nos quais , não quero discutir nesta coluna , pois cabe a escola resolve-los.

O que nós amantes do samba esperamos , é que a Viradouro consiga se reencontrar com sua identidade . E isto passa inevitavelmente com uma aproximação com sua história . Trazendo os baluartes , aqueles dos tempos áureos de conquistas dos carnavais niteroienses.


Fazendo isto, a vermelho e branco vai se fortalecer e travará de novo no carnaval de 2011 , os confrontos sensacionais com sua eterna rival, a querida Acadêmicos do Cubango. Só que agora esses encontros , não serão mais na Avenida Amaral Peixoto, mas sim na Marquês de Sapucaí.

foto: divulgação
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Prof. Mariano
Pesquisador e carnavalesco do carnaval de Niterói

Mangueira se redime e homenageia seus baluartes

Finalmente a direção da Mangueira teve sensibilidade suficiente para lembrar-se daqueles que construíram a história fantástica desta agremiação carnavalesca. No carnaval de 2011, fará uma justa homenagem ao centenário de nascimento do imortal Nelson Cavaquinho (à esquerda. foto) Que a meu ver, fez a poesia que mais retrata a alma mangueirense. Estou me referindo de “Folhas secas”, obra prima da música popular brasileira.
Esta atitude da diretoria tenta corrigir, em nossa opinião, uma das maiores incoerências praticadas por uma direção de escola de samba. No carnaval de 2008, a Mangueira tinha por obrigação história, homenagear os 100 anos de nascimento do seu mais ilustre fundador, o mestre Cartola (à direita foto). Pois bem, a escola optou por homenagear os 100 anos de frevo, dando impressão aos mais desavisados, se a mangueira tinha ou não laços de identidade com aquele ícone do samba carioca.
Esperamos que Mangueira faça uma brilhante homenagem a Nelson Cavaquinho, mas acima de tudo que possa com este enredo, firmar sua identidade perante, principalmente aos Mangueirenses novos, que tem que conhecer a escola através da sua velha guarda e não dos “mirabolantes enredos patrocinados” que só trazem grana para a escola, mas o afasta da sua memória e principalmente da sua comunidade.





foto: divulgação
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Prof. Mariano
Pesquisador e carnavalesco do carnaval de Niterói

Precisamos melhorar a qualidade dos nossos sambas enredo

Estamos vivendo o periodo da escolha de sambas enredo para carnaval de 2010, e com ele o momento para nós analistas e pesquisadores, refletirmos sobre a qualidade das obras daqueles que querem ter a pretensão de representar o hino de sua escola.






Escutando alguns sambas e acompanhando as disputas e apresentações nas quadras, estou muito preocupado com o que tenho escutado. É impressionante como a cada ano a qualidade do samba enredo vem caindo. Para nós existem, duas razões que podem ajudar a elucidar tal fenômeno.
A primeira é a mercantilização e banalização da escolha do enredo por parte das agremiações. Para arrecadarem uns trocados a mais, algumas escolas se sujeitam a fazerem dos seus enredos, moedas de trocas. Assim colocam na avenida temas que não conseguem se fazer entender e o que é pior, não cria no compositor uma inspiração poética, que facilite a criação de obras de qualidade.


Hoje se fala de tudo nos enredos, mas se mostra quase nada, pois os temas são superficiais e genéricos. Seus conteúdos são cheios de informações, mas carecem de qualidade que permita revelar ao compositor, um horizonte para sua criação poética.


O resultado da realidade destes enredos é a composição de sambas enredo com melodias repetidas de outros carnavais e letras que são verdadeiras, “sopas de letrinhas”, pois são cheias de palavras e informações que são jogadas no papel sem sentido algum.


Outro fator que pode explicar a queda da qualidade dos atuais sambas é a mediocretização da formação do compositor de samba enredo. Hoje qualquer um que escreve se acha poeta, sem, no entanto, ter conhecimento, sensibilidade e talento para isto. O resultado é a exibição de sambas ruins de letras e melodias.


Não estou exigindo, que ninguém faça samba como antigamente. Pois a inovação é algo intrínseco na história dos sambas enredo. Mas que apenas se respeite, a forma e a essência de verdadeiro samba enredo.


Oxalá! Que a safra de sambas enredo melhore, pois nenhum ouvindo merece escutar tanta coisa ruim numa noite só.

foto:divulgação

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Na Cadência da Bateria
"Carnaval o ano todo"

Sambas enredo de 1983: Clássicos que devem ser lembrados eternamente

Quem anda cansado de ouvir os sambas enredo atuais, com seus temas vazios, sem imaginação, melodias rápidas e pobres e com os puxadores ”Gospel”, que tremem a voz e querem aparecer mais do que o próprio samba. Deve reservar um tempo, para escutar com carinho a gravação dos sambas enredo das principais escolas de samba do Rio de Janeiro do ano 1983.

Lá você vai encontrar logo de cara, com dois clássicos: Mãe baiana mãe, das ‘‘Feras” Aloísio Machado e Bento sem braço do Império Serrano e Como era verde meu Xingu de Dico da viola, Paulinho Mocidade, Tiãozinho e Adil da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Na composição do Império Serrano eu destaco a beleza singela mas ao mesmo tempo extraordinária da letra deste samba. Através de um subjetivismo e sensibilidade singular, os autores fazem uma linda homenagem à mulher negra afro-brasileira. Já no samba da nossa Mocidade Independente, ressalto a força rítmica deste samba e, sua letra que é um grito político contra a destruição do meio ambiente e da cultura genuinamente brasileira. Mais em termos de qualidade de samba enredo, o saudoso disco de 1983 não fica só nestes dois clássicos citados. Unidos da Ponte, E eles verão a Deus, que é uma bela poesia lírica com letra que usa e abusa de figuras de linguagem e, Beija Flor de Nilópolis com Grande constelação das estrelas negras. um samba forte e contagiante, ajudam a fazer deste álbum o melhor feito na década de 1980.
Ainda falando da qualidade dos sambas de 1983, quero fazer uma ressalva ao samba do Acadêmicos do Salgueiro. Traço e troças ele é uma composição que rompe com a estética formalista do samba tradicional, introduzindo o verso livre e a irreverência poética.
Para fechar a analise do disco de sambas enredo de 1983, quero aqui lembrar que nele tem-se o que de melhor a história dos desfiles de escola de samba pôde oferecer em termos de puxadores de samba enredo.

Nesta gravação você tem as vozes marcantes de: Quinzinho, Aroldo Melodia, Silvinho da Portela, Grilo, Sobrinho, Ney Vianna(foto), Rico Medeiros, Marcos Moran, Neguinho da Beija Flor e Flavinho Machado. Todos estes artistas abrilhantaram este trabalho com estilos próprios que respeitaram a tradição e a força do samba.








foto:divulgação
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Na Cadência da Bateria
"Carnaval o ano todo"

Paradoxo e Inovação Feminina podem Alavancar Carnaval de Niterói

Embora eu considere um paradoxo para o espírito carnavalesco, você criar uma agremiação que separa as pessoas por gênero. Isto porque, a essência do carnaval está justamente no rompimento com as regras e distinções sociais. Apesar deste paradoxo cultural, vejo que o surgimento do bloco “Saias na Folia”, pode ser um fator de inovação e incremento do carnaval de Rua de Niterói.

A idéia da politização e irreverência do bloco me agrada muito, acho que o carnaval de um modo geral está precisando disto. A coisa ficou filosoficamente muito vazia e sentimentalmente, muito triste e pesada. Carnaval não são arrepio, nem segredo, é riso, crítica e muito ritmo.


Estive conversando com a presidente do bloco Saias na folia, a nossa querida Rita Diirr e ela me confessou que sua idéia é também desfilar pelas ruas da cidade, transformando a sua agremiação num bloco de corda, isto é, claro para não misturar homens com mulheres. Acho muito bom se isto acontecer, pois considero que estamos precisando de agremiações carnavalescas que elabore e aprimoram a nossa cultura popular, e não a banalize e descaracterize como vem fazendo muitas escolas e blocos.



Vamos esperar que o charme, a beleza e principalmente a inteligência feminina, traga um novo ânimo popular e político para o carnaval de Niterói.







Avante meninas!


foto: divulgação

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Prof. Mariano
Pesquisador e carnavalesco do carnaval de Niterói

Os 100 anos da Estrela do Império Serrano, Mano Décio da Viola

Se fosse vivo, Mano Décio da Viola teria completado no último dia quatorze, 100 anos de idade.
Nada mais justo, portanto, de rendermos uma homenagem nesta coluna a este baiano de alma carioca, que tanto fez pelo samba e pelo carnaval do Rio de Janeiro.
Vamos recordar um pouco à trajetória e o sucesso deste compositor negro, que lotou com muita dignidade contra o destino que a sociedade de classes lhe impôs.
Vindo para o Rio de Janeiro ainda bebê, Mano Décio teve uma infância muito dura, do ponto de vista social, mas desde o inicio o samba e o carnaval já reservavam a este talento, um destino de vitória e consagração.


Nas décadas de 20 e 30, mano Décio peregrinou por vários morros cariocas, freqüentando várias agremiações carnavalescas importantes do Rio de Janeiro como: Rancho Príncipe das Matas do Morro da Mangueira e a Escola de Samba Recreio de Ramos.
Mas foi em Madureira que brilhou a estrela a estrela de Mano Décio, primeiro como Admirador dos desfiles da Prazer da Serrinha. No inicio dos anos 40 e depois, como componente da escola e um dos revolucionários, que iria romper com a gestão centralizadora e capitalista do presidente Alfredo Costa, que cobrava ingresso do sambista freqüentador da escola.


Em 1946, Mano Décio da viola e Silas de oliveira compuseram para o desfile da Prazer da Serrinha um samba cuja letra interpretava o enredo da agremiação. Os dois compositores criaram o que mais tarde se convencionou a chamar de samba enredo. Até então, a música do carnaval não tinha a ver com a narrativa que o desfile apresentava através das fantasias e estandartes. A Prazer da Serrinha estava pronta para fazer história no desfile das escolas de samba daquele ano. Contudo, um pouco antes de começar o desfile, o presidente da escola decidiu vetar o samba e colocar uma canção simples no lugar.



Mano Décio da viola, Silas de Oliveira, Aniceto Menezes e Sebastião de Oliveira, o molequinho sob a proteção do pai de santo Mano Elói, fundaram em 23 de março de 1947 o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano.
O primeiro samba campeão de Mano Décio foi “Exaltação a Tiradentes”, de 1949, que criou em parceria com Estanislau Silva e Penteado e com a ajudar da filha, que emprestou o livro escolar para auxiliá-lo. Esse samba foi gravado para o carnaval de 1955 como “Tiradentes”, configurando-se como o primeiro registro histórico de samba enredo.



Exaltação a Tiradentes (1949)
Império Serrano (RJ)
Composição: Mano Décio, Estanislau Silva e Penteado


EXALTAÇÃO A TIRADENTES

Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a 21 de abril
Pela Independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais

Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre há de ser lembrado


Portanto lembrar-se de Mano Décio da viola é recordar um capítulo importantíssimo da história dos desfiles das escolas de samba. Capítulo que trás o germe do rompimento e da inovação, marcas fundamentais no caminhar do samba.


foto: divulgação
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Prof. Mariano
Pesquisador e carnavalesco do carnaval de Niterói